Tudo começou em dezembro do ano passado quando a presidenta Dilma Roussef anunciou o projeto de lei que cria o Vale-Cultura, no valor de R$ 50 por mês, para trabalhadores que recebem até cinco salários mínimos. O projeto, que na ocasião ainda dependia de regulamentação, estava previsto para entrar em vigor no segundo semestre de 2013. O anúncio foi feito pela ministra da Cultura, Marta Suplicy. A ministra lembrou que a iniciativa do governo Lula de criar o Bolsa Família teve como objetivo acabar com a fome e a miséria e disse que Dilma, agora, com o Vale-Cultura, ”dá o alimento para a alma”. Segundo a ministra, “existe uma enorme sede de conhecimento”.

Corta para fevereiro de 2013. A Ministra da Cultura Marta Suplicy disse que o novo “Vale-Cultura” poderia ser usado em cinemas, teatros, casas de shows, museus, livrarias, para a compra de revistas [‘revistas porcaria’ inclusive, como as de fofoca e pornográficas, segundo a própria Ministra, e até para a assinatura de TV a Cabo.

Mas, o que este texto tem a ver com tecnologia?

Ao ser perguntada se o Vale-Cultura poderia ser utilizado para a compra de jogos digitais, a ministra foi enfática: "Nem pensar." A Ministra ainda revelou "que não considera games como cultura" e que incluí-los nos benefícios do vale seria "forçar" demais.

Estamos em 2013. O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA, se prepara para a primeira exposição sobre videogames da história dos Estados Unidos. Enquanto isso, aqui no Brasil, a Ministra da Cultura acha que game não é cultura. Embora Marta Suplicy diga agora que os games não são cultura, ela própria assinou a portaria nº 116, de 29 de novembro de 2011, incluindo games na Lei Rouanet. O jogo de aventura Toren, produzido pelo estúdio Swordtales, é o primeiro a receber oficialmente a autorização do governo para captar recursos por meio da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura. Um dos argumentos da Ministra da Cultura para não incluir jogos de video-game no Vale-Cultura é dizer que eles são violentos. “Mas, até aí, tem um monte de filme violento e o Vale Cultura paga cinema, DVD e até TV a cabo que, além de tudo, tem canais de sexo 24 horas por dia. Não podemos ter dois pesos e duas medidas. Os games são cultura sim, geram empregos e já são parte da educação. Vou aproveitar a oportunidade de levar à ministra documentos dos nossos parceiros internacionais mostrando que, em outros países, os games são valorizados como cultura”, explica Moacyr Alves Júnior, presidente da ACIGAMES, "Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games".

 Nossa opinião é, Sim, os games são cultura, ajudam no aprendizado e tudo mais. Mas a questão da exclusão dos games do vale-cultura não tem nenhuma relação com o conceito filosófico do que é ou não cultura e arte – por mais que a ministra pareça não entender nada do assunto. É uma questão de interesses do mercado brasileiro. A discussão é válida e fica ainda mais acirrada quando vemos declarações como a do jornalista do The Guardian, Jonathan Jones em que ele afirma que games não são arte. A comunidade gamer e não gamer se manifestou por achar as declarações de ambos antiquadas e ultrapassadas, uma vez que é quase impossível não perceber a influência dos jogos digitais no cotidiano [sejam na TV, filmes ou mesmo enquanto caminhamos na rua]. E podemos ir mais a fundo e tratar a questão de forma peculiar, como no caso do premiado game nacional Xilo, vencedor do prêmio do 10º Simpósio Brasileiro de Games e Entretenimento Digital [SBGames], considerado um dos maiores da América Latina. A técnica de xilogravura é algo estritamente nacional e bebe profundamente da fonte cultural nordestina, onde um sertanejo viaja pelo nordeste em busca de 5 xilogravuras sagradas que vão salvar sua família de uma grave doença. Na aventura, o protagonista enfrenta diversos personagens de lendas brasileiras, entre eles a mula-sem-cabeça e o curupira. Cultura? “Nem pensar”, diria a Ministra. 

Nos últimos dias, Marta Suplicy voltou atrás e afirmou que o vale não valerá mais para pagar tv fechada. Talvez essa seja apenas uma tentativa desesperada de tratar o tema com um peso só, em vez posar de defensora da moral e dos bons costumes de acordo com seus conceitos antiquados; a ditadora do bom gosto. Ainda não sabemos como esse imbróglio irá terminar. Por enquanto damos um passo para trás no processo  evolutivo cultural do país. O importante é que os games continuam sendo arte/cultura sim, estejam eles no controverso programa de governo ou não.

Fonte: Kotaku | G1

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